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Equoterapia:
O que o ambiente equoterápico pode auxiliar no processo terapêutico?
Por:
Fernanda
Paula Ribeiro dos Santos
A
equoterapia surge como uma perspectiva para desenvolvimento de linguagem,
pois é um método terapêutico e educacional que utiliza o cavalo
numa abordagem interdisciplinar, nas áreas de Saúde, Educação e
Equitação. Serve para complementar o tratamento de reabilitação
tradicional, proporcionando assim, um desenvolvimento bio-psico-social
de pessoas com necessidades especiais.
Esta
nova modadlidade de tratamento em Fonoaudiologia, surge como uma
perspectiva para o trabalho de desenvolvimento de linguagem, aspectos
cognitivos e funções estomatognáticas, levando-se em consideração
a relação com os estímulos proporcionados pela intervenção fonoaudiológica
e pelo meio ambiente, pois o trabalho é realizado ao ar livre, em
contato com a natureza e com outro ser vivo.
O
TRATAMENTO FONOAUDIOLÓGICO: As técnicas e métodos utilizados
nos hospitais, ambulatórios ou clínicas, em Fonoaudiologia, são
diversos e, o ambiente a que o paciente é exposto pode tornar-se
desestimulante e, muitas vezes, insatisfatório, fazendo com que
retornem às terapias sentindo-se forçados a cumprir uma ação para
se recuperarem da patologia o mais rápido.
O tratamento fonoaudiológico de pacientes portadores de deficiências
requer, principalmente em casos de comprometimento neurológico,
acompanhamentos a longo prazo, onde os resultados que venham a surgir,
podem ser muitas vezes considerados demasiadamente lentos, o que
pode causar ao paciente e seus familiares cansaço e impaciência.
Indivíduos
portadores de deficiência física e/ou mental, geralmente apresentam
problemas de insegurança ao realizarem qualquer tipo de trabalho
que seja executado com eles. São pessoas que apresentam medos e
complexos difíceis de serem superados, fazendo com que se torne
difícil a obtenção de resultados satisfatórios no quadro clínico,
pois nem sempre colaboram com a terapia. Entretanto, esta não colaboração
provém da falta de incentivo, monotonia, falta de auto confiança,
medo, fuga, irritação, ou seja, acontecimentos que são possíveis
de ocorrer em uma sala ou clínica terapêutica.
O
TRATAMENTO NA EQUOTERAPIA: Apesar de existir há milhares de
anos, começou a ser divulgada no Brasil, no início da década de
70, na qual os pioneiros neste trabalho formaram a Associação Nacional
de Equoterapia (ANDE - Brasil), situada em Brasília - DF.
Em
1997 a equoterapia foi reconhecida pelo Conselho Federal de Medicina
como uma prática terapêutica que deve ser realizada por profissionais
legalmente habilitados.
É
indicada nos casos de paralisia cerebral; lesões neuro-motoras (cerebral
e medular); deficiências sensoriais (áudio - fono e visual); distúrbios
evolutivos e/ou comportamentais; patologias ortopédicas (congênitas
ou adquiridas); distrofias musculares; amputações; síndromes genéticas;
esclerose múltipla; atraso no desenvolvimento neuropsicomotor; retardo
mental; acidente vascular cerebral; distúrbios emocionais, de linguagem
e de aprendizagem; autismo; dentre outros.
Os
indivíduos que realizam a equoterapia são chamados de praticantes,
isto porque estão agindo sobre o animal e, não só recebendo estímulos
do mesmo.
O processo de desenvolvimento em equoterapia é feito nos seguintes
programas básicos: Hippoterapia; Educação/ reeducação e; Pré-esportivo.
Os
primeiros momentos são aproveitados para facilitar a adaptação do
praticante sobre o cavalo e, durante este instante, a cadência de
movimentos produzidos pela andadura ao passo do animal, causa uma
adequação no tônus muscular oferecendo com isso, maior facilidade
para se trabalhar todos os exercícios que serão realizados durante
a sessão de equoterapia.
RESULTADOS:
Na equoterapia a estimulação que vem do ambiente e dos movimentos
oscilatórios tridimensionais do cavalo, a qual o praticante está
exposto, remetem ao mesmo uma sensação totalmente inusitada, fazendo
com que a espontaneidade se aflore e o prazer em estar montado em
um animal que é superior ao seu tamanho em porte e altura faz com
que sua auto-estima e auto-confiança aumentem (sendo que alguns
praticantes conseguem conduzir o animal).
O
deambular do cavalo é o mais próximo do caminhar humano, tendo somente
5% de diferença. O movimento rítmico e tridimensional do cavalo,
ao caminhar desloca-se para frente, para trás, para os lados, para
cima e para baixo e, pode ser comparado com a ação da pelve humana
ao andar.
Os
resultados obtidos com as influências da equoterapia na (re)educação
motora do praticante são vistos nos seguintes fatores:
-
postura de base: pois no cavalo a postura do praticante é contrária
aos padrões patológicos (é dado enfoque ao método neuro evolutivo
Bobath);
-
solicitações cinéticas provocadas pelos movimentos do cavalo, as
quais os grupos musculares de ereção do tronco são estimulados alternadamente
por contração e relaxamento, em um movimento complexo, que por si,
estimula a rotação do tronco e envolve outros segmentos corpóreos
e os membros em seqüência ordenadas e rítmicas;
-
informações sensitivas e sensoriais provenientes do sistema vestibular,
dos proprioceptores dos músculos e articulações. Estas aferências
combinam-se segundo o esquema dos sinais de solicitação cinética
organizada pela postura do praticante e os movimentos do cavalo.
No entanto, as estimulações sensoriais, visuais e acústicas, que
são captadas pelos movimentos executados, contribuem para a melhor
percepção espacial;
-
percepção da auto-imagem, que é o resultado destas informações sensitivas
e suas respostas dinâmico-posturais, seja, como esquema corporal,
seja em relação ao próprio interior psico-intelectual da criança
e o ambiente que o cerca;
-
o efeito sobre a organização espaço-temporal faz com que a experiência
cognitiva do próprio corpo e do ambiente externo leve automaticamente
o praticante a uma nova ou até melhor organização espaço-temporal,
proporcionando uma utilização melhor de seu componente afetivo;
-
modificações na natureza psicológica: a atividade automática do
sistema nervoso central, ligada em sua maior parte à vida de relação,
nasce de solicitações de caráter mecânico, mas também de impulsos
superiores que envolvem os aspectos emotivo e intelectual do complexo
psicomotor, que se manifesta de modo parcial, por estímulos quantitativos
e qualificativos. A carência de estímulos adequados pode ser uma
das causa da diminuição destes impulsos.
Para
o desenvolvimento deste trabalho em Fonoaudiologia, o enfoque foi
dado na parte relacionada à linguagem, ou seja, nas possibilidades
de desenvolvimento da mesma em um ambiente diferente dos tradicionais,
que são clínicas e ambulatórios.
Com
a prática da equoterapia, pode-se verificar que os praticantes quando
vão para o tratamento e, enquanto estão em tratamento, sobre o cavalo,
todos apresentam uma enorme satisfação em estar montado em um animal
dócil e que os aceita como é. Esta alegria transforma a seriedade
da terapia numa sessão em que o aspecto lúdico predomina e, portanto,
a vontade de traduzir seus sentimentos em palavras ou sons, faz
com que a tentativa de comunicação de praticantes que não falam
ou apenas realizam alguns sons, seja feita para demonstrar seu mais
nobre momento: o da comunicação, seja com o meio ambiente, com os
interlocutores, com si próprio ou, até como forma de agradecimento
ao animal.
Interagindo
com o meio ambiente a criança aumenta sua capacidade cognitiva.
Numa
visão holística, o trabalho realizado em equoterapia está intimamente
ligado à Fonoaudiologia, pois além do desenvolvimento de linguagem,
está sendo trabalhado também o adequamento de funções estomatognáticas
e órgãos fonoarticulatórios, a melhora da qualidade da capacidade
respiratória e da coordenação pneumo-fono-articulatória, o qual
estaremos aprimorando estes fatores para o bom desenvolvimento da
comunicação.
Estudar
a relação da linguagem e o meio ambiente como favorecedor de comunicação,
talvez seja um estudo que reside na linguagem privativa de situações
especiais, uma linguagem codificada a qual o significado e, também,
o conteúdo emocional das palavras não são só expressos foneticamente,
mas em imagens.
Por
esta visão, relacionar equoterapia e desenvolvimento de linguagem,
refaz do laço do estudo, um nó que se desata sem esforço e apresenta
uma ou mais alças - o vínculo.
Quando
a criança começa a falar, ela está descobrindo sua relação com as
pessoas e os objetos, a linguagem permite a ela reproduzir esta
realidade.
Devemos
lembrar que o papel da imitação no acesso da linguagem, também é
essencial, ou seja, desde os primeiros elementos verbais de comunicação,
a criança penetra na via da linguagem falada pelos seus interlocutores.E
esta mesma linguagem se constituirá como modelo e referência constante.
Para
que ocorra o adequado desenvolvimento de linguagem, devemos elucidar
um item primordial: a maturidade neurológica. Esta maturidade neurológica
depende dos seguintes fatores: mielinização do sistema nervoso;
aumento da árvore dendrítica; boa alimentação e estímulos do meio
ambiente.
Desde
a mais tenra infância a criança é exposta a inúmeras possibilidades
de interação com os ambientes ecológicos e social, bem como com
seu próprio comportamento. À medida que ela se desenvolve, essas
interações vão sendo gravadas e tornando mais complexo o seu comportamento
conceitual, com base em controles por estímulos cada vez mais sofisticados.
Soma-se
a isto, a liberdade de expressão, o aumento da auto-estima e da
auto-afirmação e teremos atitudes visíveis, que vêm com o deambular
do animal, como a expressão de sentimentos.
Os
movimentos cadenciados do animal e a alegria de comandá-lo, fazem
com que a participação ativa do praticante no decorrer da terapia
tragam pontos positivos e incomensuráveis.
A
equoterapia é desenvolvida ao ar livre, em ambiente no qual o praticante
vai estar intimamente ligado à natureza e, ainda, montado em um
animal que é superior em porte e altura; podendo comandá-lo (quando
possível), é dócil e ajuda a quem necessita dele.
A
equoterapia vem de encontro à necessidade de amenizar a longa trajetória
destes pacientes que, freqüentemente, são acompanhados por diversos
profissionais (e muitas vezes em diferentes lugares), poderem ser
trabalhados por mais de um profissional, ao mesmo tempo e em um
só local. A interação com o animal, incluindo os primeiros contatos,
os cuidados preliminares, a montaria e o manuseio final, desenvolve
ainda novas formas de socialização, confiança em si mesmo e auto
estima.
Como
esta forma de terapia é realizada ao ar livre, torna-se importante
salientar que os pais participam de forma efetiva, pois estão vendo
como é realizado o tratamento e podem avaliar o desempenho de seus
filhos a cada encontro, com isto, consequentemente , há um crescimento
dos pais também, que observando os avanços de seus filhos elaboram
melhor a aceitação das dificuldades deles; pois percebem que o animal
os aceita sem distinção.
A
equoterapia proporciona, portanto, que pais, praticantes e terapeutas
tenham uma relação mais próxima.
A
equipe tem caráter multidisciplinar e interdisciplinar, sendo necessário
no mínimo três integrantes para garantir o bom desempenho e a segurança
do praticante (que é assim denominado por permanecer ativo durante
todo tempo da terapia). É fundamental um auxiliar-guia para condução
do cavalo e dois laterais para execução das atividades junto ao
praticante.
Este
tipo de terapia, por estar centrada na individualidade de cada praticante,
permite que os objetivos de diferentes áreas possam ser alcançados
ao mesmo tempo, ou seja, é um método terapêutico onde profissionais
como o fonoaudiólogo, o fisioterapeuta, o psicólogo, o pedagogo
e o terapeuta ocupacional podem atingir objetivos gerais e específicos.
"Em
uma sessão de Equoterapia após trinta minutos de exercício, o paciente
terá executado de 1,8 mil a 2,2 mil deslocamentos que atuam diretamente
sobre o seu sistema nervoso profundo, aquele responsável pelas noções
de equilíbrio, distância e lateralidade. Ou seja , o simples andar
do animal faz dele uma máquina terapêutica capaz de garantir ao
deficiente uma capacidade motora que ele não possuía e, assim, restituir-lhe,
pelo menos em parte, as funções atrofiadas pelo comprometimento
físico." ( Revista ISTO É, 16/10/96)
Na equoterapia é muito importante o processo de chegada, aproximação
e despedida do animal, visto que um vínculo forte é estabelecido,
pois trata-se de um ser vivo, maior em porte e altura do que o praticante
e, que remete uma sensação agradável com o deambular e calor de
seu corpo, pois sua temperatura é mais alta que a do ser humano.
No
final da terapia a descontração e o relaxamento com a volta ao passo
lento (após ter passado alguns momentos pelo trote certos praticantes),
servem para que o praticante e o animal retornem ao seu batimento
cardíaco normal e se despeçam.
Torna-se
um ritual o abraço da chegada e o da despedida, além de carinhosos
afagos no animal durante o decorrer da terapia.
*
Fernanda Paula Ribeiro dos Santos é Fonoaudióloga
e sócia do Centro Equoterapia Paraíso
Revista CEFAC - Atualização Científica em Fonoaudiologia; volume
2, no.2, 2000 pg 55 a 61.
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